A Arte na pandemia

Muito já foi dito sobre a importância da arte na pandemia, mas nós artesãs, que já nos utilizamos da arte, dos materiais e de nossa manualidade passada de geração a geração, sabemos da sua importância não apenas como fonte de renda ou distração, como chamam por aí. Nós artesãs entendemos essa ação como atitude. Sim, atitude de sair, por vezes, do fundo do nosso poço existencial. Quando aprendemos uma técnica é como se um novo portal fosse aberto e tivéssemos o privilégio de adentrar.

A pandemia mostrou que precisamos dessa conexão com o nosso eu mais profundo, mas que precisamos de ferramentas para essa jornada. Uma técnica nova, um material inusitado, uma aula online, um vídeo em um canal, lives... Tudo foi usado. E como reestabeleceu a nossa sanidade! Ah! como!

Ser sã nos dias atuais requer autoconhecimento e isso nós perdemos. Perdemos nossa capacidade de nos reunir em grupos, perdemos a capacidade de trocas, de transmissão de conhecimentos básicos. 

O mundo moderno tirou a nossa vó de casa, colocou ela no mercado de trabalho ( melhor dizendo, a "manteve" no mercado de trabalho). Já não temos tempo ou paciência para ouvir as histórias de tradições familiares, já não se contempla os álbuns... Embora essa falta se fez presente em alguns lares nas datas comemorativas, tais como dia das Mães, dia dos Pais, aniversários e principalmente no Natal quando alguma receita ancestral é degustada... 

A falta desse quitute que carregava em si histórias repetidas deixou um vazio e ao mesmo tempo mostrou o seu valor.

Mas a pandemia nos forçou, ou pelo menos tentou, nos manter em casa. E com pouco o que fazer ou se distrair, buscamos na culinária uma distração. Distração essa que fez revirar os tradicionais "Cadernos de receitas da vovó" ou os sites de culinária. Também buscamos o plantio, o cuidado com as plantas, descobrindo maravilhas a seu respeito, cultivando ervas frescas no peitoril da janela, como crianças observando os feijões no algodão. 

Fomos em busca de redecorar aquele cantinho da sala, do quarto, da varanda, e outros, afim de harmonizar um lar tão esquecido entre as horas no trânsito, no trabalho ou em distrações, por vezes vazias. 

Redescobrimos o quanto as tintas nos fascinam, o quanto aquelas aulas de artes, de teoria das cores, ou até mesmo sobre ângulos, numa ousadia de pinturas geométricas, eram tão importantes. Ficamos fascinados como as nossas habilidades de esculpir, de crochetar, bordar, pintar ainda estavam guardadas dentro de nós.

Somos bombardeados por arte desde que nascemos. São móbiles, legos, pintura a dedo, lápis de todos os tipos, massinhas de modelar, produções escritas, desenhos, encenações, canto, dança... Nos preparam para sermos artistas!!! E de repente, puxam o nosso tapete, literalmente. Passamos a sentar um atrás do outro, empilhados, massacrados com conteúdos e assim seguimos vidas a fora quase que em preto e branco.

Perdemos nossa capacidade de observar um casulo, de ver um feijão brotar, de admirar os gatinhos aprendendo a serem independentes!

Esquecemos da nossa criança interior. Esquecemos de nós mesmos. Nos perdemos em distrações traiçoeiras.

E de repente em plena pandemia as lojas de armarinho ganharam vida própria! Esse comércio cresceu muito, as lives e cursos de artesanato estouraram. Ficamos mais em casa e fomos aos poucos resgatando nossa criança. Lembrando do prazer dos materiais, sejam eles de artes, artesanato... Todos esses materiais são expressivos, falam por nós. É uma tradução poética de nós! É um brotar de si mesma!

Ser uma artesã, um artista ou procurar o caderno de receitas da vovó, ou o livro de pontos de bordado ou as ferramentas, nos tornou pessoas bem melhores. Pessoas melhores porque nos demos a oportunidade desse reencontro com a nossa essência, com a nossa criança interior.

"Temos a arte para não morrer da verdade." Nietzsche














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